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Especialistas avisam que só o mobiliário adequado não resolve.
Fique atento à postura e às condições de seu trabalho
Uso incorreto do micro pode provocar dor
Fim de um dia de trabalho. Em vez da prazerosa sensação de dever cumprido, há dores espalhadas pela nuca, pelos ombros, pelas costas, pelas pernas, pelos braços e pelos dedos.
Esse é um desfecho comum para quem passa boa parte do dia em frente ao computador - principalmente se o usuário não conta com mobiliário adequado ou se descuida da postura.
É o caso de Kelly Tonche, que trabalha como operadora de atendimento em um call center em Sorocaba. Ela sofre de fortes dores lombares. Enquanto está sentada, costuma balançar os pés e ficar girando a cadeira de um lado para o outro. "Tento prestar atenção na minha postura, mas há momentos em que o cansaço é tanto que simplesmente me esqueço da posição correta", diz.
Os problemas de saúde gerados pelo trabalho são tão comuns que receberam até um nome para identificá-los: distúrbios osteomusculares relacionados com o trabalho (Dort).
Eles são causados pelo atrito dos músculos, pelo excesso de força que exercem ou pela falta de oxigênio capaz de chegar até eles. Os distúrbios mais freqüentes em usuários de computador são aqueles resultantes de inflamações, de contrações prolongadas, de compressão dos tecidos e do estresse.
Segundo a responsável pela disciplina de medicina do trabalho na Faculdade de Medicina da USP, Lyz Esther Rocha, o uso do computador também pode gerar fadiga visual e mental.
A fadiga visual surge após três horas de uso contínuo. Para evitar maiores desgastes, deve-se consultar regularmente um oftalmologista e fazer pausas de 15 minutos a cada duas horas.
Também ajuda ter um monitor que funcione numa freqüência adequada. Rocha aconselha a freqüência de 80 Hz. Um ambiente bem iluminado e uma tela livre de reflexos completam os cuidados com a visão.
Já a fadiga mental é causada pela tensão e pelo estresse, que ditam um ritmo de trabalho acelerado, interferem na densidade das tarefas e reduzem o número de intervalos, estafando o usuário.
A tensão e a falta de apoio para o corpo são as principais causas de mialgia -aquela dor, normalmente nos ombros, sentida mesmo quando não nos exercitamos. "Ficar com o braço estendido segurando um livro pesado cansa mais do que o movimentarmos sem parar", explica Rocha.
O aspecto "hipnotizante" do computador também deve ser considerado. "Usar o micro é uma atividade de absorção mental. Entramos na internet para ver uma coisinha e, quando percebemos, estamos navegando há mais de uma hora", exemplifica.
A realização de duas tarefas ao mesmo tempo é outro fator desgastante. As janelas de visualização facilitam o desempenho de diversas atividades paralelamente, mas podem cansar a mente. A velocidade com que as tarefas são executadas também é prejudicial.

"Cadeirologia"
Ergonomia é a ciência que estuda a relação entre o ser humano e seu trabalho, visando o conforto, a segurança e a saúde. Além do mobiliário, ela analisa as condições de trabalho e de organização.
"Ergonomia não é "cadeirologia'", diz o professor de ergonomia em sistemas de produção da Escola Politécnica da USP, Fausto Mascia. Ele afirma que uma cadeira adequada não basta; é preciso que esteja combinada com boas condições de ambiente e de distribuição das tarefas e com o uso de acessórios, como apoios.
Segundo o professor, quem opera o computador no trabalho sofre mais do que quem o utiliza em casa, onde o ritmo de trabalho não é imposto. Isso permite fazer pausas, que são essenciais para evitar o desgaste. "Os sinais de cansaço aparecerão tanto mais cedo quanto piores forem as condições de trabalho", avisa.
Além de um ritmo moderado na execução das tarefas, usar o mobiliário correto também é de grande ajuda, pois previne problemas físicos relacionados à má postura. "As pessoas têm dimensões corporais diferentes. Por isso, não há uma receita que possa ser seguida por todos", diz o presidente da Associação Brasileira de Ergonomia (Abergo), Marcelo Soares. Mas ele admite que há recomendações básicas, como manter os pés no chão, as costas no encosto e os braços apoiados sobre a mesa.
Segundo dados de uma pesquisa sobre ergonomia realizada pela fabricante de móveis para escritório Giroflex, estima-se que o aumento da incidência de dores lombares no Brasil se deve à postura incorreta dos funcionários quando estão sentados. O estudo salienta que as dores nas costas são a maior fonte de queixas, de queda de rendimento, de fadiga e de afastamento. Ainda assim, segundo a empresa, tais dores não são reconhecidas por órgãos da Previdência como resultados de acidente de trabalho.
Um outro estudo, realizado pela Microsoft, apontou que dois em cada três profissionais que trabalham em escritório passam ao menos seis horas diárias em frente ao computador, e que oito em dez acreditam que o tipo de acessório que utilizam interfere na produtividade.
Ajuste a máquina e o mobiliário
Boa parte dos incômodos causados pelo uso do computador ocorre quando a máquina e os móveis não estão adaptados ao usuário. Antes de começar o trabalho, é preciso fazer ajustes.
Verifique se o topo do monitor está na altura dos olhos, de maneira que o seu olhar esteja direcionado a cerca de 5 para baixo. A distância entre a tela e os olhos pode variar de 50 cm a 90 cm, conforme for mais confortável.
Telas anti-reflexo são aconselháveis, pois evitam que o corpo fique envergado ao tentar "driblar" o reflexo. Pela mesma razão, prefira deixar a tela perpendicular à janela e jamais virada diretamente para uma fonte de luz.
Outro problema é a mudança de luminosidade da tela causada pela lentidão do canhão de elétrons dos monitores comuns (com tubo de imagem). Ela exige maior esforço dos músculos dos olhos e pode provocar ardência nos olhos e dores de cabeça.
Por isso, é aconselhável a freqüência de varredura seja superior a 70 Hz.
Para saber qual é a freqüência do seu monitor, clique na área de trabalho com o botão direito e selecione Propriedades (se você usa Windows XP). Na tela que se abrir, escolha Configurações e aperte o botão Avançadas. Selecione Adaptador e clique em Listar todos os modos. A que aparecer é a que está em uso e, se necessário, pode ser modificada. Em alguns monitores, a mudança não é permitida; em outros, é feita no painel frontal.
A altura da cadeira deve ser medida em relação aos pés do usuário, não em relação à mesa. Sente-se e apóie os pés inteiramente no chão. Ajuste o assento de maneira que os joelhos formem um ângulo de 90.
Se o ângulo formado for maior, as pernas ficarão balançando no ar, aumentando a pressão exercida pelas coxas sobre a borda do assento e prejudicando a circulação do sangue.
Entre os modelos de cadeira, prefira os giratórios -para ganhar mobilidade- que tenham cinco pontos de apoio no chão (para maior estabilidade). Assentos acolchoados, de raio amplo e com bordas arredondadas são os mais confortáveis.
O apoio de braço só é aconselhável se for regulável na altura. Do contrário, acabará esbarrando no tampo da mesa, fazendo com que o usuário fique mais afastado do que deveria.
A mesa também deve ter altura regulável. Nas mesas fixas, as pessoas de menor estatura têm de elevar o assento da cadeira a tal ponto que não conseguem apoiar os pés inteiros no chão. Acabam recorrendo a apoios para os pés, que restringem a área onde se pode pisar e, por isso, podem causar desconforto.
A superfície do tampo deve ser suficiente para apoiar os braços inteiros, até os cotovelos, sobre a mesa. Os móveis que possuem prateleira deslizante para o teclado são desaconselháveis. Eles não oferecem espaço para apoiar os braços, que ficam "dependurados" no teclado e causam a dobra dos punhos.
Para que a mão forme um ângulo de 180 com o braço, utilize apoios para punhos na base do mouse e na borda do teclado.
Como têm maior precisão, os mouses ópticos são preferíveis aos modelos com bolinhas, pois economizam movimentos. O mouse deve ficar no mesmo nível do teclado.
Se você consulta papéis enquanto usa o micro, procure deixá-los perto do monitor para evitar intensa solicitação dos ombros e da nuca. Pranchas com presilhas dispostas verticalmente podem ajudar nesta tarefa. Usar uma luminária é recomendável. (MB)
Cuidado com a ergonomia está previsto em lei
O Ministério do Trabalho (www.mte.gov.br) dispõe de uma norma que regulamenta as exigências ergonômicas no ambiente de trabalho.
Chamada de NR17 (abreviação para norma regulamentadora), ela estabelece parâmetros para assegurar o conforto, a segurança e o bom desempenho do funcionário.
As exigências englobam cuidados com o mobiliário, com os equipamentos, com o ambiente de trabalho e com a organização das atividades.
A norma diz que o mobiliário deve ser ajustável à estatura de cada um e que as cadeiras precisam possuir encosto que proteja a região lombar. O assento deve ter borda arredondada -o que facilita a circulação do sangue nas pernas.
Em parceria com o ministério e baseado na legislação, o Sindicato dos Processadores de Dados (www.sindpd.org.br) -uma das atividades que mais sofre com o uso do computador- preparou um manual para orientar profissionais na utilização do micro. Nele, há especificações ergonômicas e de condições ambientais.
As salas de computador não devem apresentar ruído superior a 65 dB. Barulhos constantes, como aquele proveniente do ar-condicionado, e ruídos externos perturbam a atenção e prejudicam a atividade mental do usuário.
Conversas paralelas são uma das fontes sonoras consideradas mais prejudiciais, não tanto pelo barulho que provocam mas pela quantidade de informação que carregam.
A iluminação deve ser uniforme e difusa e a temperatura deve ficar entre 22C e 26C para assegurar o conforto térmico. (MB)
Exercícios simples amenizam as dores e ajudam a evitar lesões; práticas podem ser realizadas no trabalho e em casa
Alongamentos aliviam o desgaste físico
Se você não tem o hábito de dar uma "esticadinha" durante o trabalho, é bom começar a tentar incorporá-la ao seu dia-a-dia.
Especialistas ouvidos pela Folha são unânimes em afirmar que a prática de alongamentos durante o dia ajuda a descansar os músculos e a evitar o desgaste físico.
"Éramos Homo erectus. Agora, somos "Homus Sentadus". Temos de adaptar nosso corpo à essa realidade", brinca o presidente da Sociedade Brasileira de Reeducação Postural Global (RPG), Oldack Borges de Barros.
Segundo ele, quem sofre de dores corporais necessita de mais do que um mobiliário correto: precisa melhorar suas condições físicas. "Cadeira correta não arruma corpo torto", pondera.
Para Barros, outro fator importante é a maneira como respiramos -atividade que pode tanto organizar como desorganizar a postura. Ele sugere alguns exercícios que ajudam a manter a respiração relaxada, como inspirar em dois segundos e soltar em cinco segundos, repetidamente.
A simples realização de pausas durante as tarefas já ajuda a evitar o desgaste. O ideal é fazer um intervalo de dez minutos a cada 50 minutos de trabalho e tentar mudar de posição a cada 20 minutos.
A médica Érica Verderi, desenvolvedora do Programa de Educação Postural (www.programapostural.com.br), afirma que ficar muito tempo sentado é prejudicial. "Há um aumento de 50% na pressão exercida na região lombar", diz Verderi, que aconselha passar alguns minutos em pé para alternar a ação muscular.
Segundo a médica, os principais problemas causados pelo uso do computador são o tensionamento da cervical, do trapézio (conjunto de músculos localizado na parte superior das costas) e dos ombros e inflamações dos cotovelos, dos punhos e dos dedos.
A médica Cynthia Zilli, que coordena programas de ginástica laboral em empresas, explica que os alongamentos exercem diferentes funções dependendo do horário em que são realizados.
Assim, os exercícios feitos pela manhã tem como intuito aquecer o corpo e prepará-lo para a jornada de trabalho.
Já os exercícios realizados no início da tarde têm a função de compensar o esforço feito durante a manhã e ajudar a manter um bom rendimento no período vespertino.
Os exercícios realizados no final do expediente visam relaxar a musculatura e contribuir para o bom descanso do funcionário.
Os exercícios recomendados são simples, mas deve-se ter em mente que é mais importante permanecer alguns segundos em cada posição do que repetir muitas vezes cada movimento.
Podem-se flexionar e esticar os pés, dobrar e esticar os joelhos, puxar os dedos das mãos pela parte superior -onde ficam as unhas- e realizar movimentos circulares com os punhos.
Para alongar o tronco, fique em pé e tente colocar as mãos no chão, sem dobrar os joelhos, deixando a gravidade atuar sobre o corpo. Também é recomendável esticar os braços para cima, como se fosse alcançar algo no teto, e retornar à posição inicial, com os braços paralelos ao corpo.
Os movimentos com o pescoço requerem delicadeza e cuidado redobrado. Alongue a nuca tentando encostar o queixo no peito. Faça também movimentos laterais, movendo o queixo na direção de cada um dos ombros. Fique atento para não elevar os ombros enquanto realiza esses movimentos. (MARIANA BARROS)
Fonte: Folha de Informática (Folha de S.Paulo)
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