Por Antonio Neto*
Veiculado no Jornal DCI, dia 12/09/2008O Brasil continua ostentando a taxa de juros mais altos do mundo e atraindo especuladores de todas as partes do mundo
O último aumento da taxa básica de juros (Selic) anunciado pelo Banco Central se deu, novamente, na contramão do desenvolvimento que o País voltou a experimentar desde o início do segundo mandato do presidente Lula.
Com isto, o Brasil continua ostentando a taxa de juros mais altos do mundo e atraindo especuladores de todas as partes do mundo, diante da elevada
lucratividade dos papéis públicos do País. Recentemente, o ex-ministro Delfim Netto, diante dos números que revelam queda geral da inflação, confirmada por todos os índices, chegou a uma conclusão incontestável: "Esse recuo da inflação nada tem a ver com os aumentos da taxa básica de juros conduzidos pelo Banco Central desde abril".E acrescentou: "Uma coisa é certa: se a inflação voltar à meta de 4,5% no início de 2009 não será devido à 'tempestiva precipitação' [do BC], mas a fatores externos, a não ser que seja o aumento de juros no Brasil que está derrubando o preço das
commodities em Chicago..."
As palavras do ex-ministro referem-se à ata do Comitê de Política Monetária do BC (Copom), do aumento anterior ao de quarta-feira, também de 0,75 ponto percentual. O documento dizia que "a estratégia adotada visa a trazer a inflação de volta à meta central de 4,5% tempestivamente". Em seguida, afirma-se que o aumento de juros só agirá sobre a inflação no fim deste ano e no início do próximo. O fato, cada vez mais cabal, é que o aumento localizado da inflação teve origem externa. A queda atual, também. Dessa forma, a elevação da taxa de juros pelo BC teve, mais uma vez, o efeito nefasto de comprometer o crescimento econômico e continuar desestabilizando o
câmbio, com prejuízos gigantescos para nossa balança comercial e nossas contas externas.
A política de juros altos, na prática, tem revelado que nada tem a ver com a queda da inflação. Muito pelo contrário. Tem a ver com a drenagem de recursos do Tesouro para os bancos, principalmente os externos, via juros -, além da intenção de facilitar a vida da oposição nas eleições de 2010, freando o crescimento implementado pelo presidente Lula, principalmente depois da adoção do PAC.
Está cada vez mais evidente que o preço dos alimentos - principal setor onde houve aumento da inflação - começou a cair porque os especuladores, que atuam principalmente na Bolsa de Chicago, começaram a se livrar dos papéis lastreados neles, pelo temor de que em breve não poderiam vendê-los por preço maior do que aquele pelo qual os compraram. Dessa forma, a especulação nas "bolsas de futuros", onde se aposta qual será o preço de tal ou qual alimento depois de um determinado prazo, tem sido um dos principais, senão o principal fator que tem estimulado esses preços para o espaço sideral, já que nesse cassino jogam os próprios monopólios que dominam o comércio mundial de produtos alimentícios, assim como os bancos vinculados a eles.
A redução dos preços que se verifica no momento corresponde à banal lógica da especulação: compram-se títulos desvalorizados para vendê-los quando seus preços se elevem novamente. O problema é que ninguém sabe por antecipação quando é o momento do "preço máximo", porque especuladores não são adivinhos. Mas, se alguns desconfiam que chegou esse momento, ou que está próximo, começam a vender seus papéis - e os colegas de ofício os acompanham, apavorados com a perspectiva de serem os últimos, ou seja, de ficarem com o mico na mão sem ter a quem vendê-lo ou tendo de vendê-lo abaixo do preço pelo qual foi comprado.
Essa é a razão primordial que explica a atual queda dos preços dos alimentos, depois de uma contínua alta nos últimos anos - e principalmente nos últimos meses, após a erupção da crise norte-americana das hipotecas, quando muitos especuladores fugiram dos títulos lastreados nelas, querendo compensar as perdas com os papéis lastreados nos alimentos. É o falso pretexto para os juros altos usado e abusado pelo BC.
Importa, agora, lembrar que essa experiência recente demonstra a necessidade de o Brasil adotar mecanismos de proteção diante das oscilações desse mercado de futuros provocadas pela especulação mundial. A manipulação dos especuladores faz com que os preços se elevem e depois caiam, com o que alguns se dão bem e a maioria se retira, provisória ou permanentemente, para a rua da amargura.
É bom que se lembre também que foi num desses movimentos mal-sucedidos que o atual presidente do BC, Henrique Meirelles, foi "aposentado" da presidência do BankBoston, depois que, na crise argentina de 2001, deixou o banco e seus clientes ficarem com o mico na mão. Mesmo com De la Rúa fazendo jus ao seu nome, ele achava que tudo voltaria a ser como dantes na grande nação do Prata... Agora à frente do BC brasileiro, parece querer compensar os prejuízos que acarretou aos seus colegas especuladores.
O Brasil demonstrou, nos últimos anos, que tem uma capacidade imensa para o desenvolvimento, a geração de empregos e a distribuição da renda. Os últimos números, apesar da malfadada política baseada no tripé juro alto, meta de inflação e superávit primário, revelaram que o presidente Lula e o nosso povo estão decididos a trilhar esse caminho. Precisamos - e urgentemente - nos livrar de mais essa herança maldita, hoje incrustada no BC, para que o desenvolvimento auto-sustentável seja seguro e irreversível.
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