Revista do Sindpd/09 - outubro de 2005Rosely Sayão é psicóloga e tem se destacado pelos livros escritos sobre educação e relacionamento entre pais e filhos e pelos artigos que escreve para a Folha de São Paulo sobre estes mesmos temas. Todas as terças-feiras, Rosely participa do Momento família, programa de Lillian Witte Fibe, respondendo perguntas de internautas no site da UOL.
Atendendo a diversas solicitações de associadas, procuramos a Dra. Rosely para esclarecer sobre alguns conflitos vividos pela mulher que trabalha, que valoriza a sua profissão e ao mesmo tempo não quer deixar de lado a sua vida afetiva, doméstica e principalmente a educação de seus filhos.
Vamos a seguir reproduzir os principais momentos de nosso diálogo com Rosely Sayão. Optamos por manter na escrita o mesmo tom coloquial da conversa, para que nossos leitores sintam a simpatia, a tranquilidade e a atenção com que Rosely nos recebeu.
Podemos falar em uma terceira jornada da mulher, que não chamaríamos de jornada de trabalho, mas sim, uma jornada afetiva que seria a jornada da mãe com seus filhos e da mulher com seu companheiro?Podemos sim a mulher profissional, a mulher que cuida da casa, do lazer e do parceiro e a mãe, é bem dirigido mesmo.
Para começo quero ressaltar uma questão, parece que as mulheres não têm escolha, a vida é muito impositiva de fora para ela. A mulher tem que ser profissional, sendo profissional tem que ganhar bem, perseguir uma carreira, ter sucesso, ter prazer no trabalho e satisfação.Tem que ser independente, autônoma e livre, para isto ela depende um pouco do trabalho e por isto persegue uma carreira porque tem a conseqüência do salário.
Tem que estar disposta sempre para a vida sexual e sem problemas, porque vida sexual com problemas não vale. Ela, sai em busca de um parceiro mas, ao mesmo tempo um único parceiro por um longo tempo, no mundo contemporâneo não é tão importante. O importante é ter um relacionamento, tanto, que a gente não pergunta mais a pessoa: Você é casada? A gente pergunta: Você tem um relacionamento?
E, finalmente a maternidade porque obrigatoriamente ela tem que ter filho. Então parece que ela fica, assim, investida de um super poder..
Ela acredita que tem super poderes para dar conta de tudo isto e não tem. Algumas coisas demandam escolhas. Então, é muito difícil uma mulher, por exemplo, ter uma carreira profissional de ascendência, que exija muito dela, e ao mesmo tempo ter filho. Uma hora ou outra, ela que tem que fazer uma escolha ou, deixa um pouquinho daqui ou, deixa um pouquinho de lá. Creio, que o que acontece neste momento é que ela não vislumbra esta possibilidade de escolher porque sempre acha que se deixa alguma coisa sai perdendo. Se deixar de ter filho em prol da carreira acha que como não ter filho hoje?
Então estas imposições sociais têm sido uma carga muito pesada e isto provoca, na mulher, uma sensação permanente de insatisfação porque ela acha que não dá conta de tudo e não dá mesmo.
Escolhas, culpas, mulheres super poderosas, são produtos da sociedade moderna?Não falo da mulher que trabalha regularmente, a maioria das mulheres como nós, que tem sua vida regrada, com seu emprego, seus filhos e marido. Agora, por exemplo, uma analista de sistemas, que dá assessoria no Sul ou no Nordeste, isso já complica a sua vida se ela for mãe. E não a da mulher que tem seu emprego regular e que também já carrega o peso desta tripla jornada que já falamos. Quando disse escolha, é mais ou menos isto: Eu tenho a possibilidade de dar assessoria no Brasil inteiro, e com isto elevar meu padrão de vida, tanto no econômico como no social, só que eu vou ter que deixar meus filhos, ou eu abro mão disso e fico com meus filhos.
As mães padecem de uma culpa incrível. Criou-se uma fantasia de que as mulheres das gerações anteriores tinham mais tempo para os filhos, podiam ficar mais com eles. Elas trabalhavam fora de casa? Não, trabalhavam dentro da casa, mas não fazia parte da cultura do mundo este relacionamento mais próximo com o filho. Basta tentar lembrar da realidade, a mãe estava ali na casa, mas o filho não estava com ela, ficava brincando no quintal, na rua, tinha os amigos ou ficava brincando sozinho. Não tinha essa proximidade e a mãe ainda dizia não me atrapalhe que estou ocupada. Portanto, não tem essa história de que hoje a mulher sai para trabalhar e abandona o filho. Nunca houve uma relação tão próxima, um vínculo tão estreito entre mãe e filho. Essa culpa, creio, tem muito mais a ver com essas imposições e a sensação que nunca dá conta de tudo que ela quer
A que você atribui a conquista desse vínculo entre mães e filhos? Podemos chamar de conquista?Acho que é uma realidade não sei se é uma conquista, temos que esperar algumas décadas para dizer que é uma conquista. É mais ou menos igual quando a gente achou que foi uma grande conquista sair para trabalhar, não foi conquista foi necessidade, fomos levadas a trabalhar, não foi uma escolha. Tem muitas mulheres que não gostariam de trabalhar fora. Isso, eu acho, que a mulher ainda não tomou ciência, existe uma pressão muito grande sobre o trabalho da mãe, ela tem que educar melhor o filho, ser mais presente e por aí vai. Ao mesmo tempo vejo que a mulher trabalha 8, 10, 12 horas por dia.
Quando a mulher que trabalha engravida, em geral ela é jogada de escanteio, porque se sabe que filho pequeno dá problemas, tem que levar ao médico e outras coisas mais. O que as mulheres deveriam fazer é se unirem, não só as mulheres, para criarem empregos de meio período para as que têm filhos pequenos, com jornadas de 6 horas, ou no mínimo respeitar as 8 horas e criarem condições em empresas que tenham no mínimo 20 mães, para que as crianças fiquem na empresa.
Em algumas empresas maiores se contrata uma ou duas professoras competentes e deixam a criançada brincando lá, a mãe fica mais segura. Pode almoçar com o filho, na hora do café vai lá beija o filho, não deixa de dar atenção. Hoje, o que se exige da mulher é que ela deixe seus filhos numa creche fora da empresa, ou com empregada, ou com avós e ela fica o tempo inteiro ao telefone, quando pode, querendo saber se está tudo bem com a criança e isto gera muita angustia.
E como educar os filhos, principalmente os adolescentes, nesta realidade?Se não começa a definir os vínculos e limites no primeiro ano de vida não tem como resolver na adolescência. Mesmo dedicando toda sua energia para educá-lo desde pequeno, chegando na adolescência ele vai virar a mesa de qualquer jeito, educado ou não, e achar que o mundo dele é que é o certo e que seus pais são caretas. Adolescência é a fase de "Bom, agora eu sou senhor de mim mesmo, eu não aceito esse mundo careta da minha mãe e do meu pai" é o momento deles recusarem o mundo adulto.
Este é um momento delicado da gente continuar bancando o que ensinou. Tem mãe que diz: "Nossa, parece que não ensinei nada.", mas está tudo lá guardado numa gaveta, se você conseguir bancar esse período ele será feliz e acalma. Porque na verdade ele fala assim, "Eu posso ser muito diferente do que você queria, você vai continuar gostando de mim? Mesmo falando palavrão, fumando maconha, abandonando vocês?" E a gente tem que responder: "Sim, sim, sim. Mas, veja que você faz parte desta família e esta família não permite, isto, aquilo...Aqui temos um jeito de viver". Enfim, reafirmando tudo o que já foi ensinado antes. Terminando a adolescência ele escolhe como ele quer viver. Ele tem essa possibilidade de escolha e de adquirir personalidade.
Eu gosto de fazer uma comparação, que é mais ou menos quando você recebe de seus pais uma casa de herança, recebe a casa do jeito que seus pais construíram, é sua, mas não tem sua cara. Tem gente que olha quer fazer uma reforma, outro resolve derrubar a casa e ficar só com o terreno, tem os que preferem vender e são muitas as opções possíveis. A carga educacional que recebemos é uma herança. Depois da adolescência, mais ou menos 19 anos, cada um vai definir o que vai aproveitar dela, como vai adaptá-la para ter a sua cara.
E os limites e a permissividade na relação com os filhos?A mulher que se acha a super poderosa, pra dar conta de três tipos de vida, e não vê que ela tem limites, não é capaz de dar limites. Como que a gente quer que um sujeito que se vê ilimitado dê limites a outro ser. Ao meu ver, aí começa o grande drama.
Existe uma pressão social para que a gente torne o filho feliz. Deixar o filho feliz é incompatível com a educação. Não temos que deixar o filho feliz. Temos que formar o filho para que no momento que ele puder viver busque a própria felicidade.
Veja, o filho está lá jogando vídeo game, vendo desenho, brincando com os amigos e você o chama para tomar banho, jantar com a família, fazer lição de casa ou ir dormir. Se a gente tem essa coisa de querer ver o filho feliz, a gente tem que deixar o filho fazer tudo o que quer, ver TV, jogar, brincar e, não impedi-lo de fazer o que estava fazendo, que para ele estava muito melhor era o que ele queria. No entanto, ao atender nossos pedidos ele fica infeliz naquele momento, mas aprende o valor. E o valor é que a minha família acha minha presença indispensável, importante. Porque ao não solicitá-lo para o jantar, o almoço, para a convivência familiar estamos passando a mensagem de que ele não é importante para nós.
E a conversa, o diálogo?Primeiro que não sabemos mais dialogar. Dialogar é uma conversa entre duas pessoas que pensam diferentes, achamos que diálogo é acabar com as diferenças, imposição e não é. Diálogo é respeitar e chegar numa conclusão, juntos.
As mulheres têm falado demais com seus filhos. Nós queremos impor aos filhos uma linguagem adulta, o que não é correto.
Não adianta discursar para uma criança que não quer escovar os dentes, explicando que vai criar bichinhos porque ela não vai acreditar e não existe futuro para a criança. Agora, se a gente propor uma corrida até a pia e ver quem vai chegar primeiro para escovar os dentes teremos mais resultado. Precisamos falar a mesma linguagem deles, tem que ser uma coisa mais lúdica e menos adulta, com a criança.
Com o adolescente já é uma conversa diferente, é um pouco mais próximo com a de gente grande. O código de linguagem do adolescente e da criança é totalmente diferente do nosso.
Essa dificuldade de diálogo a mulher sofre em todas as áreas, com o parceiro, no trabalho e com a família. Ela já não discrimina mais, se ela está falando com o colega de trabalho, com o marido, com o vizinho.
Estamos falando do padrão da mulher, já colocada no mercado de trabalho, que está numa categoria profissional, que é da classe média, e quando falamos da mãe solteira, ou carente, que precisa criar sozinha seus filhos?Na classe média e médio-alta, a mulher esta cada vez mais independente cada vez mais ela não precisa de um companheiro, estamos tirando o direito das crianças de terem pai e mãe. Até podem se separar, o problema é que separa e a mulher quer dar conta sozinha, isso não faz bem à educação dos filhos, ou mesmo para seu crescimento. Em geral a mulher também dificulta o relacionamento dos filhos com o ex-marido. Se separam dos maridos, querem ficar longe deles e acabam afastando esses pais dos filhos, a mulher acaba guardando muitas mágoas e acaba passando isso aos filhos, o que não deveria acontecer, porque ex-marido é uma figura e pai é outra.
O que falta muito na educação dos filhos é firmeza e tranqüilidade. No momento que você é firme numa posição você ganha autoridade moral. Quando perde a autoridade moral apela para autoridade do grito, brigando o tempo todo. Ou entrega a Deus.
Exigir uma vida equilibrada, regrada e próspera para nossos filhos é uma projeção que fazemos de nossas vidas?É moralismo mesmo, a gente vê todos os defeitos neles e nos achamos bem melhor do que eles. Se a gente não acreditar que eles serão melhores do que nós, esse mundo não vai pra frente.
Os nossos pais nos educaram para sermos melhores do que eles, hoje em dia os pais não acreditam que os filhos tenham um futuro, eles sempre acham que os filhos não vão chegar aos pés deles.
O que o mundo contemporâneo valoriza é a juventude, a eterna juventude que não existe. O jovem é que manda no mundo, eu posso ter 30, 40, 50, 60 anos que eu acho que sou sempre "jovem", eu não posso deixar que o jovem vença se não eu vou ficar velho. É uma posição cultural e nós estamos disputando com nossos jovens.
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